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Cresce o medo de estupro entre mulheres no Brasil, aponta pesquisa

Estudo revela que 82% das brasileiras temem violência sexual, com destaque para jovens e negras, e evidencia a predominância de agressores do círculo social da vítima.

02/03/2026 às 16:13
Por: Redação

O percentual de mulheres que declararam ter muito medo de sofrer um estupro registrou um crescimento significativo no Brasil, conforme revelam novos dados de uma pesquisa conjunta do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva. Os números, antecipados com exclusividade à Agência Brasil nesta segunda-feira, 2 de março de 2026, acendem um alerta sobre a percepção de insegurança entre o público feminino.

 

A pesquisa aponta uma escalada preocupante no sentimento de temor. Em 2020, 78% das mulheres entrevistadas manifestavam "muito medo" de serem vítimas de estupro. Esse índice subiu para 80% em 2022 e atingiu 82% nos dados mais recentes, coletados em 2025. Ao considerar também aquelas que expressaram "um pouco de medo", o total de mulheres que vivem com algum grau de temor pela violência sexual chega a impressionantes 97%.

 

Em grupos específicos, a proporção de "muito medo" é ainda mais acentuada. Entre as jovens com idade entre 16 e 24 anos, o percentual alcança 87%. Já no contingente de mulheres negras, este número é ainda maior, chegando a 88%. Esses dados ressaltam a vulnerabilidade sentida por segmentos da população feminina em relação à violência sexual.

 

Marisa Sanematsu, diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, enfatiza a constância desse medo e a ausência de espaços verdadeiramente seguros para as mulheres. Ela descreve como o temor assombra as brasileiras em todos os lugares, inclusive na própria casa, ao sair, esperar transporte ou usar aplicativos.


O medo assombra as mulheres brasileiras o tempo todo, desde pequenas e em todos os lugares: a casa é insegura, assim como sair e voltar, esperar o transporte, enfrentar a condução lotada ou pedir um carro por aplicativo.


Essa vivência de temor constante leva as mulheres a adotar estratégias de proteção. Elas evitam sair à noite, reconsideram o uso de certos tipos de roupas e acessórios, buscam estar sempre acompanhadas e, por vezes, escolhem trajetos mais longos para tentar sentir um mínimo de segurança, o que impacta diretamente sua liberdade e rotina diária.

 

Violência dentro de casa e a proximidade do agressor

 

A pesquisa de 2025, cuja primeira onda de dados foi divulgada em setembro daquele ano, já havia revelado que 15% das entrevistadas eram sobreviventes de estupro. Alarmantemente, oito em cada dez dessas vítimas sofreram a violência quando tinham 13 anos ou menos. A segunda onda, publicada nesta segunda-feira, adiciona informações cruciais sobre o local e o perfil dos agressores.

 

Os dados mais recentes mostram que, entre as vítimas com até 13 anos, 72% foram violentadas dentro da própria casa. Em metade desses casos, o agressor era um familiar, e em um terço dos relatos, tratava-se de um amigo ou conhecido da família. No total, 84% dos estupros foram cometidos por um homem do círculo social da vítima, evidenciando que a maior parte das violências ocorre em ambientes de confiança.

 

Mesmo para mulheres violentadas com 14 anos ou mais, o padrão se mantém: 76% dos abusadores eram pessoas conhecidas, incluindo amigos, parceiros íntimos, familiares e ex-companheiros. Além disso, 59% dessas vítimas sofreram a violência dentro de casa, o que reforça a complexidade e a intimidade dos contextos em que a violência sexual acontece, desmistificando a ideia de que o perigo reside apenas em estranhos.

 

Apoio às vítimas e a importância da denúncia

 

A pesquisa "Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro" ouviu 1.200 pessoas, homens e mulheres, de todas as regiões do país. Embora 99% dos entrevistados concordem que as mulheres têm medo de estupro, 80% acreditam que as vítimas raramente ou nunca revelam a violência sofrida, seja por ameaças do agressor, medo de não serem ouvidas ou vergonha.

 

Os resultados confirmam a dificuldade em romper o silêncio. Cerca de 60% das mulheres vítimas antes dos 14 anos não contaram para ninguém sobre o abuso. Apenas 15% foram levadas a uma delegacia e somente 9% procuraram uma unidade de saúde, evidenciando uma lacuna crítica no acesso a apoio e justiça.

 

A população demonstra amplo apoio a políticas de assistência: 93% concordam que o Estado deve oferecer acompanhamento psicológico imediato, e a mesma porcentagem defende que prefeituras e governos aumentem a divulgação de serviços de saúde especializados no atendimento a vítimas, demonstrando uma clara demanda social por acolhimento.

 

Maíra Saruê Machado, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, sublinha a urgência de aprimorar os serviços de acolhimento. "Existe amplo apoio da população para que vítimas de estupro tenham acesso aos direitos garantidos por lei, mas essas informações ainda não chegam a quem mais precisa", afirmou, ressaltando a desconexão entre o direito e seu acesso efetivo.


Existe amplo apoio da população para que vítimas de estupro tenham acesso aos direitos garantidos por lei, mas essas informações ainda não chegam a quem mais precisa.


Ela complementa que "o estupro é uma violência próxima da realidade da maioria das mulheres, e romper o silêncio por meio da informação é um passo fundamental para garantir proteção e acesso a direitos a todas as mulheres", apontando a educação e a informação como pilares para a superação deste grave problema social e individual.

 

Depoimentos revelam traumas e obstáculos

 

A pesquisa também trouxe à tona relatos chocantes de mulheres que vivenciaram a violência sexual. Uma mulher parda, do Sudeste, entre 25 e 44 anos, compartilhou sua experiência: "Comecei a ser abusada criança, com 6 anos, sem nem entender o que acontecia, e o abusador me fazia acreditar que eu era culpada e que, se eu contasse para alguém, ninguém acreditaria em mim. Meu abusador era o meu pai."


Comecei a ser abusada criança, com 6 anos, sem nem entender o que acontecia, e o abusador me fazia acreditar que eu era culpada e que, se eu contasse para alguém, ninguém acreditaria em mim. Meu abusador era o meu pai.


Outra vítima, uma mulher preta, também do Sudeste e com mais de 45 anos, descreveu sua tentativa frustrada de buscar ajuda: "Eu tinha apenas 11 anos, foi horrível, não entendia direito o que estava acontecendo. Tentei falar com a minha mãe, mas ela não acreditava em mim, dizia que eu queria acabar com o casamento dela. Ainda bem que minha avó percebeu algo estranho e me trouxe de volta pra casa dela".


Eu tinha apenas 11 anos, foi horrível, não entendia direito o que estava acontecendo. Tentei falar com a minha mãe, mas ela não acreditava em mim, dizia que eu queria acabar com o casamento dela. Ainda bem que minha avó percebeu algo estranho e me trouxe de volta pra casa dela".


A dramática realidade da gravidez resultante de abuso e a dificuldade de acesso ao abortamento legal também emergem. Uma jovem parda, do Sudeste, entre 16 e 24 anos, relatou: "Eu sofri um abuso e engravidei por causa desse ato. Eu, com 13 anos, não poderia ser mãe e ia interromper minha vida, eu estava estudando, então, eu decidi não contar para os meus pais e pedir ajuda de uma amiga próxima minha. Então, ela me levou a um aborto clandestino e lá eu fiz o procedimento".


Eu sofri um abuso e engravidei por causa desse ato. Eu, com 13 anos, não poderia ser mãe e ia interromper minha vida, eu estava estudando, então, eu decidi não contar para os meus pais e pedir ajuda de uma amiga próxima minha. Então, ela me levou a um aborto clandestino e lá eu fiz o procedimento.


 

Acolhimento e direitos sob constante ameaça

 

O Brasil garante, por lei desde 2013, o atendimento imediato e integral às vítimas de violência sexual em todos os hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS), sem a exigência de boletim de ocorrência. Marisa Sanematsu reitera a importância de que o Estado invista na divulgação de informações sobre esses direitos, para que as vítimas possam acessar o suporte necessário e proteger sua saúde física e mental, permitindo a retomada de suas vidas após o trauma.

 

A ampla maioria dos entrevistados também se mostrou favorável aos serviços de interrupção da gravidez nos casos previstos em lei, como o estupro. Nove em cada dez concordam que as vítimas devem ser informadas sobre os protocolos para evitar infecções sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada. Além disso, 86% acreditam na necessidade de serviços públicos para interrupção da gestação em todas as cidades, embora apenas metade conheça algum desses serviços.

 

Angela Freitas, comunicadora social, ativista e co-diretora da campanha "Nem Presa Nem Morta", alerta que o cumprimento da legislação ainda depende da disposição de gestores políticos. "A maior parte dos municípios não dispõe desse serviço, as pessoas têm que viajar longas distâncias e nem todo mundo pode fazer isso. É uma carência muito grande", critica, apontando para a fragilidade do sistema.

 

Freitas, que também articulou a campanha "Criança não é mãe", ressalta que "o Brasil passou por um processo de democratização, fez a sua Constituinte, criou o Sistema Único de Saúde, o Sistema Único de Assistência Social, criou políticas públicas, mas todos esses avanços vivem ameaças constantes de retrocesso. Eles ainda não se consolidaram como direitos que são dados e que ninguém contesta", finaliza, alertando sobre a vulnerabilidade dos direitos conquistados.

 

A ativista acrescenta que as carências do sistema são ainda mais danosas para crianças e adolescentes que engravidam após a violência. Muitas vezes, os episódios não são revelados imediatamente, e a gravidez só é percebida tardiamente. Quando essas meninas buscam atendimento e o direito de interromper a gestação, "encontram dificuldades dentro do próprio sistema", dificultando o acesso à justiça e ao cuidado adequado.

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