Nesta quinta-feira, dia 12, o Padre Júlio Lancellotti participou do programa Alô Alô Brasil, transmitido pela Rádio Nacional, onde conversou com o apresentador José Luiz Datena. Durante a entrevista, o sacerdote abordou a intenção da prefeitura de São Paulo de encerrar as atividades do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, uma instituição que ele mesmo fundou.
Este núcleo, que atualmente está sob a gestão do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto e não mais diretamente pelo Padre Júlio, possui uma história de 36 anos. Ele foi estabelecido sob o Viaduto Guadalajara, no período em que Luiza Erundina era prefeita de São Paulo, marcando o início da municipalização dos serviços de atendimento à população em situação de rua. A instituição tem um papel crucial, fornecendo aproximadamente 400 refeições diárias a pessoas em situação de vulnerabilidade.
O trabalho desenvolvido pelo centro é realizado em regime de convênio com a administração municipal de São Paulo. Conforme relatado pelo padre, a prefeitura havia justificado a possível desativação do local como parte de um “processo de requalificação da rede socioassistencial do município”, garantindo que os frequentadores seriam realocados e não ficariam desassistidos em termos de alimentação. No entanto, o Padre Júlio mencionou que, após forte reação pública, a Secretaria Municipal de Assistência Social emitiu uma comunicação na quarta-feira, dia 12, cancelando a notificação de fechamento, mas solicitando diversas novas informações ao centro.
“Não basta dizer ‘põe dez para cá’, ‘20 para lá’. Temos que saber quem são essas pessoas. A população de rua não são anjos e nem demônios, são pessoas. Que têm seus problemas e suas limitações.”
Agostinho Teixeira, co-apresentador do Alô Alô Brasil, indagou o padre sobre a possibilidade de a especulação imobiliária ser a motivação por trás da tentativa de fechamento do Núcleo de Convivência. Teixeira ressaltou que a área do centro, no bairro do Belenzinho, é considerada valorizada.
Em sua resposta, Padre Júlio Lancellotti lembrou que a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica no ano corrente tem como tema a moradia. Ele classificou a questão habitacional como “um dos problemas mais sérios hoje da realidade urbana de São Paulo e nas grandes capitais brasileiras”.
O sacerdote ainda relatou ter conversado recentemente com o prefeito Ricardo Nunes, a quem teria declarado que “quem governa São Paulo é o mercado imobiliário, é a especulação imobiliária. Você vê o Plano Diretor, vê as autorizações que são conseguidas na Câmara, elas privilegiam a moradia dos grandes condomínios.”
A prefeitura paulistana havia anunciado, no início do mês de março, a intenção de encerrar as atividades do Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, localizado no Belenzinho, bairro da Zona Leste da cidade.
Diante da situação, o Ministério Público de São Paulo instaurou um inquérito na sexta-feira, dia 6, para investigar a decisão do fechamento e solicitou esclarecimentos à prefeitura.
Em uma atualização posterior, na quarta-feira, dia 11, o órgão municipal informou que o núcleo não seria mais fechado e que haveria um “aperfeiçoamento dos serviços prestados pelo centro.”