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Conflito em Rondônia termina com duas mortes durante retirada de sem-terra

Polícia Militar e Comissão Pastoral da Terra divergem sobre as circunstâncias dos óbitos de irmãos em fazendas do grupo Di Genio, em Machadinho do Oeste.

22/11/2025 às 00:14
Por: Redação

Duas pessoas morreram na quinta-feira, 20 de novembro de 2025, em Machadinho do Oeste, Rondônia, durante uma operação de retirada de centenas de famílias sem-terra que ocupavam quatro fazendas pertencentes ao grupo Nelore Di Genio. A Polícia Militar de Rondônia confirmou os óbitos, apresentando uma versão dos fatos que contrasta com a narrativa da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que acusa a corporação de perseguição aos ocupantes rurais mesmo após o início da desocupação judicial das áreas. Os irmãos Alex Santos Santana e Alessandro Santos Santana foram as vítimas fatais do confronto, gerando um cenário de intensa controvérsia sobre as circunstâncias das mortes.

 

O incidente ocorreu em propriedades que fazem parte do espólio do falecido empresário João Carlos Di Genio, fundador da rede educacional Unip/Objetivo. A região tem sido palco de tensões agrárias, e a operação policial visava cumprir determinações judiciais de reintegração de posse. A divergência entre as versões dos eventos — a polícia alegando troca de tiros e a CPT apontando para uma execução em meio a uma "caçada humana" — sublinha a complexidade e a fragilidade da situação dos trabalhadores rurais envolvidos no conflito agrário.

 

Detalhes do confronto e versões opostas

A Polícia Militar de Rondônia relatou que seus agentes do Batalhão de Choque estavam patrulhando uma área já desocupada, visando prevenir novas invasões, quando avistaram um veículo trafegando em alta velocidade pela Rodovia RO-133. Os ocupantes, identificados como os irmãos Santana, teriam ignorado a ordem de parada e tentado fugir, atirando contra os policiais durante a perseguição. A PM afirma que o veículo ficou atolado, e os indivíduos armados desembarcaram, disparando novamente contra a guarnição antes de serem baleados.


"O veículo prosseguiu em fuga até ser cercado por outras viaturas. Mas, ao tentar se esconder em uma área de mata, o carro ficou preso [atolou] em areia fofa. Dois indivíduos armados desembarcaram e dispararam novamente contra as guarnições, configurando um segundo ato de agressão armada", narrou a Polícia Militar.


Os irmãos Alex e Alessandro Santana foram encontrados caídos em um matagal, um deles atingido no peito e o outro gravemente ferido em uma das pernas. Ambos foram socorridos e levados ao Hospital Municipal de Machadinho, mas não resistiram aos ferimentos. A polícia alegou ter apreendido duas armas de fogo e munições, mas admitiu que a Perícia Criminal não pôde ir ao local devido à distância e ao histórico de conflitos na área, o que dificulta a elucidação independente dos fatos. O carro em que estavam foi recolhido após o ocorrido.

 

A versão da Comissão Pastoral da Terra e o conflito agrário

Josep Iborra, assessor agrário da CPT, conhecido como Zezinho, contesta veementemente a narrativa policial, descrevendo a operação como uma "caçada humana" contra os sem-terra. Ele afirmou que as 440 famílias já haviam desocupado pacificamente as fazendas (Maruins, Santa Maria, São Miguel e São Vicente), mas muitas permaneciam dispersas e escondidas na mata, sem ter para onde ir, sem intenção de reocupar as propriedades. Zezinho negou a troca de tiros e questionou a ausência de perícia no local, levantando sérias dúvidas sobre a versão oficial dos eventos.


Segundo os sem-terra, não houve troca de tiros; os corpos foram levados para o hospital, e o cenário das mortes não foi preservado para a perícia, conforme o relato do assessor da CPT.


A CPT, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), destacou que a desocupação das propriedades do Grupo Di Genio, que os trabalhadores rurais argumentam serem terras públicas griladas, iniciou-se sem notificação prévia ou apresentação de um Plano de Desocupação, contrariando as diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para ações possessórias coletivas. A operação envolveu dezenas de viaturas, helicópteros e até um carro blindado, em um contexto de intensa mobilização policial para o cumprimento das decisões judiciais.

 

As ordens de reintegração de posse foram emitidas entre 30 de maio e 3 de outubro, em quatro processos distintos, pelos juízes do Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO), Matheus Brito Nunes Diniz e Pauliane Mezabarba. O assessor da CPT informou que os irmãos Alex e Alessandro faziam parte do grupo que deixou a Fazenda Santa Maria e que as circunstâncias de suas mortes exigem esclarecimentos urgentes, razão pela qual a CPT acionou órgãos como o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e os Ministérios Públicos estadual e federal.

 

Em resposta às críticas da CPT, a Polícia Militar de Rondônia reiterou seu dever legal de proteger oficiais de Justiça e cumprir decisões judiciais, reafirmando que os irmãos Santana reagiram violentamente à abordagem. A PM afirmou que "a conduta dos envolvidos, ao desobedecer a ordens legais e disparar contra agentes públicos, representou um grave risco à coletividade e à ordem pública, justificando a intervenção da guarnição". O Batalhão de Choque da PM permanecerá na região para "restabelecer a ordem e a paz social durante a Operação Reintegração de Posse Grupo Di Genio", reforçando o policiamento na área.

 

Os advogados que representam o Grupo Di Genio informaram à Agência Brasil que as invasões às fazendas de Machadinho do Oeste ocorrem desde o ano anterior, levando à abertura de ações cíveis e criminais. Eles buscam a reintegração da área, considerada produtiva, e cobram providências contra danos ambientais e materiais. Os defensores alegam que os sem-terra estão desmatando a vegetação nativa, extraindo madeira ilegalmente – inclusive com o uso de tratores, caminhões e motosserras –; construindo barracos e loteando as propriedades com a clara intenção de, posteriormente, revendê-las, o que agrava ainda mais a complexidade do cenário de conflito fundiário.

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