Um relatório da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) alerta para o aumento significativo das ameaças e restrições ao jornalismo crítico e independente em quase todo o continente americano. Divulgado na última sexta-feira (17), o documento enfatiza a "deterioração da liberdade de imprensa" em países tanto da América do Sul quanto da Central e do Norte. Segundo o relatório, a "escalada das pressões" contra jornalistas e meios de comunicação ameaça pilares fundamentais da democracia, como a liberdade de imprensa e expressão, além do direito dos cidadãos a obter informações confiáveis.
"O desafio mais complexo que enfrentamos hoje é o da desinformação", afirmou José Roberto Dutriz, presidente da SIP, durante a abertura da 81ª Assembleia Geral da entidade em Punta Cana, República Dominicana. Dutriz destacou que, "em um ecossistema midiático saturado por redes sociais, algoritmos opacos e pela irrupção veloz da inteligência artificial generativa, a mentira viaja mais rápido que os fatos. A manipulação das informações corrói a confiança social".
A SIP observa que a prática diária do jornalismo tem sido prejudicada em diversos países das Américas, sem distinção de ideologia governamental. O relatório aponta que assédio, violência, perseguições judiciais, pressões econômicas, controles digitais e censura explícita se intensificaram em várias nações, como Argentina, Colômbia, Canadá, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Nicarágua, Peru e Venezuela.
A preocupação se estende aos Estados Unidos, onde críticas frequentes do presidente Donald Trump e seus apoiadores aos meios de comunicação e jornalistas críticos geraram alarme sobre a deterioração do ambiente de trabalho dos profissionais de imprensa, tradicionalmente considerados defensores das liberdades democráticas. Exemplo disso, jornalistas de grandes agências como a FOX News devolveram suas credenciais de acesso ao Pentágono em protesto contra a exigência de aprovação de suas reportagens pelo Departamento de Defesa.
No Brasil, os últimos seis meses foram marcados por preocupante assédio judicial a jornalistas na primeira instância, conforme Martha Ramos, presidenta da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP. "Embora as decisões finais, do Supremo Tribunal Federal, tenham geralmente favorecido a manutenção da liberdade de imprensa", disse Martha, citando o caso do jornalista Rosane de Oliveira e do jornal Zero Hora, condenados a indenizar a ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.
Em um relatório publicado em maio, a ONG Repórteres Sem Fronteiras posicionou o Brasil em 47º lugar em seu ranking anual de liberdade de imprensa, uma melhora em relação à posição anterior. Nos EUA, entretanto, que ocupam a 57ª posição, a confiança na mídia está em declínio, alimentada pela politização das instituições públicas sob a administração Trump.