O Banco Central (BC) formalizou nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, uma entidade diretamente ligada e controlada pelo Banco Master. Esta decisão foi tomada após a constatação de graves irregularidades e a inviabilidade de uma solução que preservasse suas operações, resultando na indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.
A liquidação da Will Financeira ocorre poucos meses após o Banco Master ter sido submetido a um Regime Especial de Administração Temporária (RAET) em novembro de 2025, também por determinação do BC. O conglomerado Master, ao qual a Will Financeira pertencia, representava 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional (SFN) na época.
Inicialmente, quando o Banco Master foi liquidado, o BC havia optado por impor o RAET ao Master Múltiplo S/A, buscando uma alternativa que permitisse a continuidade das operações da Will Financeira. Contudo, essa expectativa não se concretizou. O órgão regulador enfatizou que a medida inicial visava o interesse público, na tentativa de evitar maiores prejuízos.
Na ocasião da decretação da liquidação extrajudicial do Banco Master, entendeu-se adequada e aderente ao interesse público a imposição do RAET ao Master Múltiplo S/A, ante a possibilidade de uma solução que preservasse o funcionamento de sua controlada Will Financeira.
A situação se agravou em 19 de janeiro de 2026, quando foi verificado o descumprimento pela Will Financeira de sua grade de pagamentos com a Mastercard Brasil Soluções de Pagamentos, culminando no bloqueio de sua participação no arranjo de pagamentos. Diante desse cenário, o Banco Central considerou inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira, justificando a decisão pelo comprometimento de sua situação econômico-financeira, pela insolvência declarada e pelo vínculo de interesse evidente com o controle exercido pelo Banco Master.
O Banco Master, liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, experimentou um rápido crescimento ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com rentabilidade significativamente superior à média do mercado. Para sustentar esse modelo de negócios, a instituição assumiu riscos excessivos e estruturou operações que inflavam seu balanço de forma artificial, enquanto sua liquidez real, o dinheiro disponível para ressarcir investidores, se deteriorava progressivamente.
Relatórios do Banco Central e investigações da Polícia Federal revelaram que o colapso do Banco Master transcendeu a esfera meramente financeira, caracterizando-se como um fracasso institucional. A interligação com a gestora Reag Investimentos, as tentativas de venda para o Banco de Brasília (BRB) e a pressão sobre órgãos de controle transformaram o episódio em um complexo cenário, com profundos impactos sobre investidores e a credibilidade do sistema financeiro.
As investigações da Polícia Federal e os relatórios do BC apontam que o colapso do Master não foi apenas financeiro, mas também institucional, revelando uma série de práticas problemáticas.
Entre 2023 e 2024, o Banco Master é suspeito de ter desviado aproximadamente 11,5 bilhões de reais por meio de um esquema de triangulações. Recursos eram emprestados a empresas supostamente “laranjas” que, por sua vez, aplicavam o dinheiro em fundos da gestora Reag Investimentos. Estes fundos adquiriam ativos de valor real baixo ou nulo, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços inflacionados.
As análises do Banco Central identificaram seis fundos da Reag considerados suspeitos, com um patrimônio conjunto de 102,4 bilhões de reais. Este montante circulava entre fundos interligados aos mesmos intermediários, até chegar aos beneficiários finais do complexo esquema. A liquidação extrajudicial da Will Financeira é, portanto, mais um desdobramento dessa intrincada rede de operações.