Mato Grosso do Sul agora dispõe de um instrumento inovador para compreender a realidade de seus povos originários. O recém-lançado Painel Povos Originários oferece informações detalhadas sobre a população, territórios, diversidade étnica e condições de vida, servindo como base numérica essencial para a formulação de políticas públicas direcionadas.
O estado detém a terceira maior população indígena do Brasil, com um total de 116.469 indivíduos, o que representa 6,9% do contingente nacional. A análise do painel revela que a maioria, 59%, reside em terras indígenas, predominando jovens entre 15 e 29 anos e uma leve superioridade numérica de mulheres.
Um dos aspectos mais relevantes do painel é a revelação da vasta diversidade cultural e linguística, registrando a presença de 139 etnias e 48 línguas indígenas distintas no território sul-mato-grossense. Essa amplitude de dados desafia percepções simplificadas sobre a identidade desses povos.
A Funai reconhece oficialmente oito etnias originárias em Mato Grosso do Sul: Guarani Kaiowá, Guarani Ñandeva, Terena, Kadiwéu, Kinikinau, Guató, Ofaié e Atikum. O número expandido de 139 etnias refletido no painel decorre da consolidação do estado como um polo de referência em áreas como educação e saúde, atraindo comunidades indígenas de diversas partes do país.
Criado através de uma colaboração entre o Observatório da Cidadania, a Secretaria de Estado da Cidadania e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o Painel Povos Originários compila uma gama variada de informações. Os dados abordam desde índices de natalidade e envelhecimento até aspectos como educação, moradia e a distribuição geográfica da população indígena nos 79 municípios do estado.
Samuel Leite de Oliveira, coordenador do Observatório da Cidadania, sublinhou a importância do projeto.
“Este painel tem como objetivo dar visibilidade à presença e à diversidade dos povos originários em Mato Grosso do Sul. Ao reunir informações sobre distribuição territorial, perfil populacional e condições socioeconômicas, ele contribui para o reconhecimento das especificidades culturais e históricas desses povos e para o fortalecimento de políticas públicas mais justas e direcionadas.”
José Francisco Sarmento, secretário de Estado da Cidadania, avaliou que a disponibilidade desses dados representa um marco histórico para a formulação de políticas públicas.
“Não existe política pública séria sem dados. Hoje, o que mais se valoriza em qualquer gestão é isso. Sem informação, a gente corre o risco de investir recursos onde não são mais necessários e deixar de atender quem realmente precisa. O Observatório funciona como uma lupa, que nos permite enxergar de verdade quem são essas pessoas.”
Em um momento de grande emoção, o secretário Sarmento relembrou a ausência de tais informações no passado.
“Por muito tempo, essas pessoas estavam no mundo, mas não apareciam nos dados. Eu fico imaginando quantas histórias poderiam ter sido diferentes se lá atrás a gente tivesse acesso a esse tipo de informação. O que estamos fazendo agora é olhar para essas pessoas com seriedade e responsabilidade.”
A concepção do painel foi impulsionada pela carência de dados pré-existentes. Josias Ramires Jordão, técnico da Subsecretaria de Políticas Públicas para Povos Originários e membro do povo Terena, recordou a dificuldade de obter informações precisas.
“Lá atrás, a gente não tinha indicadores. Era ligar para as lideranças e perguntar quantas crianças, quantas mulheres havia nas comunidades. Era tudo muito disperso. Hoje, com esses dados, a gente consegue enxergar a população indígena como um todo, e isso muda completamente a forma de construir políticas públicas.”
Jordão também enfatizou que a ferramenta contribui para uma compreensão mais aprofundada da diversidade indígena no estado.
“Muita gente conhece apenas alguns povos, mas o Estado tem 139 etnias. Isso mostra a riqueza que temos e a necessidade de políticas que considerem essas diferenças.”
Para Heliton Cavanha, técnico da Subsecretaria de Políticas Públicas para Povos Originários e pertencente à etnia Kaiowá, o acesso a esses dados representa um marco histórico de reconhecimento para as comunidades.
“São mais de 500 anos de luta. Hoje, a gente ter esses dados significa olhar para as pessoas de verdade. Não é sobre política partidária, é sobre atender quem precisa.”
Cavanha acrescentou que os números também empoderam as próprias comunidades na defesa de seus direitos.
“A gente sempre fala: para pedir política pública, precisa ter dados. Quantas pessoas trabalham com agricultura? Quantas crianças precisam de escola? Sem esses números, a gente não consegue dialogar. Agora a gente começa a falar e a ser ouvido.”
O secretário José Francisco Sarmento reiterou que o painel transcende um avanço técnico, simbolizando uma mudança de atitude.
“A cidadania tem o papel de colocar luz sobre quem historicamente foi deixado de lado. Quando a gente conhece, a gente se responsabiliza. E é isso que estamos fazendo: olhando para essas pessoas como sujeitos de direitos, independentemente de qualquer outra condição.”
O Painel Povos Originários é o oitavo lançado pelo Observatório da Cidadania, estando disponível de forma gratuita e acessível ao público. O conteúdo completo pode ser acessado pelo endereço eletrônico: https://observatoriodacidadania.ufms.br/.